Posso dizer que meu amigo João Gabriel é co-autor deste texto, mesmo sem ter ditado uma linha sequer. Foi através de idéias que trocamos que resolvi escrever a respeito deste assunto: por que humanos têm tanta compaixão com outras espécies de animais e não com a sua própria? Não, não quero encontrar uma resposta aqui até porque não sou um pesquisador da mente humana. Gostaria apenas de partilhar minha reflexão.
A crueldade – arrisco dizer – é uma qualidade exclusiva nossa. Pelo menos nunca ouvi falar de outra espécie que maltrata ou mata por prazer ou que o faz conscientemente. Mesmo levantando a bandeira do vegetarianismo, eu não deixaria de matar para comer numa situação de necessidade, como qualquer outra espécie que ocupa o topo da cadeia alimentar. E justamente por termos tal consciência é que, ao contrário dos que maltratam, existem aquelas pessoas que defendem o direito de todos animais a uma vida sem sofrimento. Grupos de defesa dos animais é o que não falta, embora ainda haja muitos em condições precárias. Infelizmente também existem aqueles como a antiga ALPA, de São Leopoldo, onde que os administradores desviavam verbas e deixavam as centenas de gatos e cachorros morrerem de fome e doenças diversas, só que este é um caso em que não irei me aprofundar agora.
O João me levantou uma questão que pôs a cabeça pra funcionar: por que alguns acham lindos os guaipequinhas pulguentos e sarnentos jogados na rua enquanto que, sob os mesmos olhos, mendigos são invisíveis? Não que os animais abandonados não mereçam atenção, longe disso!, mas essa simples questão. Se todos tem direito a uma vida digna, por que “uns são mais iguais que os outros” (George Orwell, d’A Revolução dos Bichos)? Entendo que não haja falta de compaixão e que existem grupos que protegem animais, assim como outros que dão auxílio às pessoas que vivem na rua: cada um com suas preocupações. O problema é que vi essa matéria da BBC Brasil que me deixou muitíssimo indignado e confesso, desanimado perante tanta hipocrisia da nossa raça. Aos que não quiserem ler a reportagem, um breve resumo da própria BBC: “Um mendigo que foi esfaqueado após tentar ajudar uma mulher em uma discussão acabou morrendo na rua, ignorado pelos transeuntes, segundo imagens captadas por câmeras de segurança de um prédio nos arredores.”
Aí tive que dar plena razão ao João. Como é possível existir uma mobilização tão grande pró animais de rua se não somos capazes de pegar o telefone e chamar uma ambulância porque é “só” um mendigo que está agonizando até a morte? Será que nos consideramos tão vilões assim por causa de tudo de ruim que há nesse mundo ao ponto de desejarmos uma lição dessas? Não, mendigos são pessoas invisíveis em qualquer parte do mundo ao passo que gatos e cachorros não são.
Que fique claro que não estou dizendo que esses animais abandonados não mereçam atenção ou que devemos fazer um mutirão para tirar todas as pessoas da miséria. Pessoas miseráveis sempre existiram e sempre existirão e sim, acho certo fazer protestos e tomarmos atitudes para que esses bichos de rua achem um lar e alguém que tome conta deles, mas agora fica a pergunta: por que tanta indiferença ou, se somos todos iguais, por que “uns são mais iguais que outros”?





